Projeto inaugural do Tear 4

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domingo, 2 de maio de 2010

Considerações sobre a palavra....e a falta dela...?



A transferência se dá no momento em que o analisando introduz o analista em seu pensamento ou em seu discurso. Neste momento o analista foi capturado no circuito pulsional do sujeito, que o coloca como o objeto possível de lhe dar satisfação (objeto de gozo), tal como já estava sido inscrito anteriormente no sujeito. Ou seja, o analisando repetirá sua gramática pulsional determinada por suas experiências precedentes, incluindo o analista como o seu alvo. Caberá ao analista perceber e precisar a forma e a posição que o analisando o está colocando, para dar a direção ao tratamento coerente com a lógica psicanalítica.

Para a palavra fazer sentido é necessário que o experimentado, o vivido pelo sujeito seja coerente com o Grande Outro.

A libido, esse movimento aquoso que permeia a reserva narcísica e o trajeto pulsional, fará esta ligação que resultará no substrato das experiências vividas pelo afeto, fora linguagem, e aquilo que do Grande Outro, do Real, afeta o sujeito.
É a partir desse substrato que o sujeito será chamado para a linguagem. O que for pescado pelo significante, ou, para que algo pescado signifique, é preciso fazer sentido coerente para o sujeito, entre o pré-sentido corporalmente e o escutado. Se o que é escutado na linguagem do Grande Outro não corresponder ao pré-sentido pelo sujeito haverá um mal-estar, um vazio, “a coisa”. O pré-sentido, o escutado, o visto, o cheirado, o apalpado, o engolido, o vomitado, o defecado, o urinado formarão sensações, imagens sem correspondente significante. Na criança isto é comum porque para ela, em formação, ainda não estão a seu dispor os recursos da linguagem. Ela ainda está vivenciando “a coisa” sem a possibilidade de nomeá-la momentaneamente.

Em trabalho analítico o analista convoca que essas imagens sejam traduzidas em palavras. O pré-sentido corporalmente, substrato das imagens formadas é convocado a fazer sentido.

Ao encontrar e pronunciar a palavra, ao introduzi-la no discurso, esta vai ajustar a experiência particular do sujeito ao consenso da linguagem, do Grande Outro. O discurso vai fazer sentido. As palavras vão ganhar peso, vão ser validadas na experiência analítica. A apropriação da palavra pelo analisando terá como conseqüência imediata a responsabilização do sujeito junto com o seu desejo, porque ele perceberá o vínculo entre si próprio e o dito, é ele quem fala, e a palavra lhe pertence.

Questões:
A apropriação e validação da palavra só é convocada pela presença do analista? É possível haver esse reconhecimento da validação da palavra fora análise? Escrever um livro não é uma forma de validar as palavras, já que será reconhecido por um público? O reconhecimento pelo Grande Outro basta para dar sentido verdadeiro à palavra?

O pronunciamento da palavra não seria um substituto de gozo? Não seria uma saída para a satisfação parcial para o alvo pulsional? É aí que está a perda de gozo?

Entendendo o sintoma como um ciframento RSI, a palavra também não seria um ciframento das experiências do vivido do sujeito, ou seja, um processo de formação semelhante a um sintoma?

Qual a diferença entre recalque e trauma, quando falta a palavra? Há algum tipo de representação no trauma? Porque o que é recalcado é a representação...


Simone Caporali Ribeiro

Um comentário:

  1. Simone,
    "validando" o seu trabalho e o da Lucia Frota, que coordenaram a proveitosa tarde de hoje, é bom ver que VALEU!!!! Acho que tanto pra vcs quanto pra cada um que trabalhou o livro, o texto e as questões que surgiram, VALEU! Temos a cada item que vc levantou aí no texto, e os que foram trabalhados hoje, um outro extenso trabalho de elaboração.O que vimos foi a escrita de uma análise, pelo analisante, já a uma certa distância do tratamento. Tá valendo! Mais que reconhecimento, trata-se do movimento que este tipo de trabalho provoca.

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