Projeto inaugural do Tear 4

Projeto inaugural do Tear 4

terça-feira, 29 de junho de 2010

Tear 4...aqui se trança?


Para manter um "diário"é preciso uma certa mentalidade arquivista, que exige alguma disciplina que ordene a vida...""Ter um diário é uma maneira de colecionar os dias...Claro, as ambições do diário são uma causa perdida de antemão..."(Michelle em sua página http://www.colba.net/~micheles )


Em 1994, a Associação Vinaigre, em Paris, lançou uma experiência paradoxal: construir uma obra coletiva a partir de pontos de vista íntimos. Ao longo dos meses pessoas de diferentes lugares e horizontes se reuniram em torno de regras simples, para descrever cenas da vida cotidiana, observadas em lugares públicos.Era proibido usar a palavra 'Eu', mas necessário tentar permanecer o mais próximo possível da emoção sentida pelo observador.Criou-se a partir dos primeiros textos o Journal Intime Collectif, que em 1997 já conta com mais de centena de autores de 7 a 70 anos. O Journal Intime Collectif, não só entra na Net, como passa a promover leituras públicas todos os feriados em Paris, no Café Les Couleurs!!! A internet abriria caminho para uma nova forma de comunicação, de intimidade estendida ao coletivo? Registro do efêmero, do descontínuo, escritura para não se afogar...na loucura?

E o blog doTear 4? A que tem servido?

Aqui, no uso e fruto deste blog, o que, coletivamente, podemos trançar de 'nossos' particulares da clínica, do trabalho de estudo, dos des-encontros bem sucedidos das discussões de nossas questões singulares? A que  nossa escritura há de responder, destes lugares de trabalho, para que uma transmissão se faça e nos retorne em trabalho, ainda e de novo?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O trabalho analítico cotidiano, algo a se pensar...



No Seminário XIII, lição 17, do dia 11/05/66, encontramos uma referência ao trabalho analítico cotidiano, quando, referindo-se à formação dos psicanalistas, Lacan observa:



“A relação do psicanalista com a questão do seu estatuto retoma aqui em forma de uma agudeza desdobrada, a propósito do que, desde sempre, é colocado como o estatuto de quem detém o saber. O problema da formação do psicanalista não é, senão, permitir através de uma experiência privilegiada, que nasçam, que se dêem à luz – se me permitem a expressão – sujeitos para os quais esta divisão do sujeito não seja tão somente algo que eles sabem, mas também algo no que pensem. Trata-se de que se dê à luz alguns que pudessem descobrir o que experimentam na experiência psicanalítica, a partir desta posição sustentada, pela qual nunca estão em estado de desconhecer que, no momento de saber, como analista, estão em uma posição dividida.”


A que se refere Lacan, quando fala de uma ‘experiência privilegiada’?

Para Heidegger, a experiência não é um mero fazer ou atuar, mas algo que se define como “faire une maladie”, ou seja, fazer ou sofrer uma enfermidade*. Tal é, também, de certo modo, a formulação com que Freud define a experiência psicanalítica, na medida em que a caracteriza como uma ‘doença artificial’, á qual nomeia ‘neurose de transferência’. Artefato do qual se vale a estrutura na experiência de uma análise.

Experiência privilegiada, porque privilégio é “a vantagem que se concede a alguém com exclusão de outrem e contra o direito comum”, assim reza o Aurélio e, portanto, algo singular, único, distinto. Então, dessa experiência privilegiada, Lacan espera o surgimento de um sujeito capaz de refletir, de pensar sobre o sujeito dividido. Entretanto, a esse pensar, não se aplicam os encaminhamentos do cogito cartesiano.

Daquele que viveu a experiência analítica e ‘sabe’ da divisão do sujeito, espera-se um pensar advindo do real.

A experiência da falta está na base, e é condição prévia do próprio “corpus” teórico da Psicanálise, de todos os princípios de sua clínica, do estatuto, de seu objeto, do lugar do analista e de sua direção ética.



*A experiência é, para Hegel (1810/1992), um movimento dialético que conduz a consciência até si mesma, explicitando-se a si mesma como objeto próprio. O conteúdo da consciência é o real. A mais imediata consciência de tal conteúdo é a experiência. A experiência é o modo como aparece o sujeito e o objeto (o Ser para Hegel). Este modo de aparecimento, enquanto processo ou constituição, é a formação da consciência. A noção de experiência não pode ser reduzida à experiência interior subjetiva, nem à experiência exterior objetiva. Trata-se de uma experiência absoluta, na qual o interior e o exterior apresentam-se imbricados um no outro.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"A vida não é um sonho..."

A título de contribuição para o início de nosso estudo de Tiquê e Automaton, no Seminário 11 de Lacan, Lucia Frota nos encaminha:

Lacan, neste texto apresenta uma introdução, tres segmentos e um final.
Na introdução estabelece o que orienta a psicanálise, em contraponto com o idealismo.
O idealismo está relacionado com as idéias, importante para os cientistas, para os quais, o que interessa é o desenvolvimento das idéias e das representações, para atingir uma finalidade.
Lacan diz: A psicanálise é orientada para aquilo que, no coração da experiência, é o núcleo do real, não é idealismo.
Este real ao qual ele se refere é um encontro marcado, a que somos chamados, com algo que nos escapa e que, na experiência psicanalítica se apresenta no que nele é inassimilável, na forma de trauma, determinando sua sequência, impondo uma origem, na aparência, acidental. Lacan traduz o real, tomando emprestado de Aristóteles os termos tiquê e automaton .

Vamos ver o que diz Aristóteles




A casualidade (Automatón) e a sorte (Tychê) segundo Aristóteles

«As causas do que sucede como resultado da sorte são, pois, necessariamente indeterminadas. Daí que se pense que a sorte é algo indeterminado ou imprescrutável para o homem, mas também se pode pensar que nada sucede devido à sorte. E tudo isto que se diz está justificado, já que há boas razões para isso. Porque em certo sentido há factos que provêm da sorte, pois há- os que sucedem acidentalmente, e a sorte é uma causa acidental. Mas em sentido estrito a sorte não é causa de nada.» (...)



«A casualidade (Automatón) diferencia-se da sorte (Týchê) por ser uma noção mais ampla. Porque tudo quanto se deve à sorte deve-se também à casualidade, mas nem tudo o que se deve à casualidade se deve à sorte. A sorte e o que resulta dela só pertencem aos que podem ter boa sorte e em geral ter uma atividade na vida. Por isso, a sorte limita-se necessariamente à atividade humana. Um sinal disso está na crença de que a boa sorte é o mesmo que a felicidade, ou quase o mesmo, pois a felicidade é uma certa atividade, a saber, uma atividade bem lograda. Logo o que é incapaz de tal atividade é também incapaz de fazer algo fortuito. Por isso nada que seja feito pelas coisas inanimadas, os animais e as crianças é resultado da sorte, já que não têm capacidade de escolher; para eles não há boa ou má sorte, a menos que se fale por semelhança, como quando dizia Parménides que eram afortunadas as pedras com que se faziam os altares, enquanto que as suas companheiras eram pisadas.»

Aristóteles, Física, Livro II