Projeto inaugural do Tear 4

Projeto inaugural do Tear 4

sábado, 27 de março de 2010

Um blog de psicanálise!!?? E-feito de invenção?



"Um blog (contração do termo "Web log"), também chamado de blogue em Portugal, é um site cuja estrutura permite a atualização rápida a partir de acréscimos dos chamados artigos, ou "posts". Estes são, em geral, organizados de forma cronológica inversa, tendo como foco a temática proposta do blog, podendo ser escritos por um número variável de pessoas, de acordo com a política do blog.
Muitos blogs fornecem comentários ou notícias sobre um assunto em particular; outros funcionam mais como diários online. Um blog típico combina texto, imagens e links para outros blogs, páginas da web e mídias relacionadas a seu tema. A capacidade de leitores deixarem comentários de forma a interagir com o autor e outros leitores é uma parte importante de muitos blogs. "(Wikipédia)

Um blog de psicanálise pretenderia difundir, divulgar, propagar a psicanálise?

A difusão refere-se ao ato ou efeito de difundir, espalhar ou derramar liquefazendo, disseminar, espalhar, espargir, propagar-se, divulgar-se. Prolixidade e redundância.Divulgar, por sua vez, do latim, divulgare, é tornar público ou notório; publicar; propagar, difundir, vulgarizar. Dar acesso ao vulgo, à plebe, ao comum, ao universal.
Propagar, do latim propagare, é multiplicar, ou reproduzindo ou por geração; dilatar; proliferar; desenvolver-se por contágio.
Poder-se-ia dizer que, a regra fundamental, da associação “livre”, da escuta, e, não, a ausculta do analista, enquanto aquele que sustenta a demanda, introduz a possibilidade de a análise, enquanto deslizamento significante, tornar-se passível de ser propagada, difundida, isto é, multiplicada, reproduzida por geração, dilatada, desenvolvendo-se por contágio, proximidade. Também se poderia vulgarizá-la, criar demandas com ofertas a granel e no atacado, na mídia, e ao modo “quick” de nosso tempo, em todo canto e lugar. Basta acreditar na simples regra analítica como motor da transferência, basta acreditar no amor e na demanda que nunca há de cessar, já que o sujeito nunca fez outra coisa além de demandar! Aliás, só se constituiu e só pôde viver por isso!
Um blog de psicanálise pretenderia isso???

Um blog de psicanálise pretenderia transmitir um trabalho? Como e quando a psicanálise se transmite? O que dela se escreve?

O analista ex-siste ao saber do Outro, mas, mais ainda, ex-siste ao próprio saber, e é isso o que o distingue dos demais.

Arriscam-se os psicanalistas, ao se reunirem,de se colocarem, alegoricamente, como os detentores de um saber com o qual não podem dialogar, para compartir um saber que não conseguem intercambiar?

Estar juntos para trocar um saber que não se pode trocar é paradoxal. Um saber rebelde à dialética da interlocução, só pode ser um saber não inscrito no Outro, como é o caso do analista que só o é em sua prática, em ato, quando não pensa.

E é este saber em ato, que não pensa, que aglutina os analistas, mas não é suficiente para identificá-los. É talvez também o mesmo que os atormenta, o que os faz trabalhar, e, até mesmo, adoecer. A esta doença profissional Lacan chamou “Suficiência”. Pois, o terem que ser suficientes para o ato sem o concurso do Outro, pode tornar os analistas suficientes no sentido do desconhecimento. E o grupo, como o desconhecimento necessita do Outro, se oferece para encobrir e tamponar o insustentável da posição do analista.

O analista só pode ser interrogado a partir de seus atos e dos efeitos produzidos, cuja resposta só tem valor a partir de um pretérito, um “terei sido” ou “teria sido”. Ele é então, testemunho dos atos.É a ele,então, que cabe dar conta do que o fez testemunha, naquele tempo ou ato. Como?

Através de seus textos, suas falas, seus tropeços, e é claro, através de sua prática e dos efeitos que se lhe ocorrem, quando questões se lhe impõem, advindas da clínica, no sentido deste “terei sido?”.

E esta questão só pode se apresentar, no seu sentido radical, só poderá ser formulável, para aquele que experimentou as condições lógicas de uma análise: des-ser para o analisante e des-subjetivação para o analista.

Então, um blog de psicanálise poderia se apresentar como um lugar de publicação, pub-lixação daquilo que, de resto, resta aos analistas, um a um, fazer com o que tenham a-fazer de sua falta, ao seu estilo?

Escrever, ratear, tear talvez...

Angela Porto

quarta-feira, 24 de março de 2010

....barbantinhos no ‘imbornal’


....barbantinhos no ‘imbornal’

Que oportuna a presença do “corte” que a Gilda imprime com seu comentário, pra gente repassar aqui nossa conversa da 2ª feira(22/03), a propósito do entrelaçamento dos conceitos de inconsciente, desejo(do analista) e transferência.
Voltei lá no Seminário do Ato e trouxe esses barbantinhos no ‘imbornal’.... é mais ou menos assim: uma vez que o Ato define por seu corte a passagem onde se instaura, onde se institui o psicanalista, fica muito claro que temos que repassar pelo modo de verificação que constitui para nós uma interrogação lógica.
A questão que se atualiza aqui, quando se refere ao psicanalista e para irmos aí com prudência, é a de que quando o termo ‘psicanalista’ é colocado em posição de qualificação, quem, o quê pode ser dito.... predicado: psicanalista? (07/02/68)
Se o ato psicanalítico constitui em suportar a transferência é porque não dizemos quem suporta ou quem faz o ato. A transferência, se nós não a restituirmos a seu verdadeiro nó , na função do sujeito suposto saber, ela se redobrará em baboseiras e não passará de uma “pura e simples obscenidade”.
_ mais um passo pra nossa leitura da lição sobre a “Presença do analista”(Sem. 11).

Lúcia Montes


segunda-feira, 22 de março de 2010

É issoaí...


(Comentário de Gilda Vaz Rodrigues ao texto "De novo, momento de ver...")

É isso aí, amiga, a psicanálise, a teoria, a clínica, a vida, como você bem disse. Se o Real é a vida, como assinala Lacan no RSI, sem deixar de incluir aí o Simbólico e o Imaginário, para gozar a vida estamos mesmo condenadas a fazer laços através dos buracos cavados pelas perdas, decepções, que nos levam a mudar o rumo e o sentido das coisas. Não há enlace sem desenlace. Assim, vamos tecendo o fio de nossas vidas. A psicanálise nos deu recursos para isso. Nós sabemos quanto trabalho é preciso. Enfim, se o trabalho do analista pode ser comparado ao do cirurgião, na medida que opera com cortes e suturas, o nome Tear 4, parece-me muito feliz por trazer o duplo sentido de tecer e serrar.
Gilda Vaz Rodrigues

A escrita "desaba por dentro"...


A minha adesão ao "Tear 4 "em sua linha de estudo, reflexão e escrita em psicanálise resultou do desejo de dar continuidade a um processo em gestação iniciado no ano de 2009 . Textos, propostas estão sendo tecidas à partir de dispositivos pessoais (análise ,clínica, estudos anteriores, experência de vida ).Tudo isso colocado num tear para se fazer uma tecitura .Tecitura feita num coletivo à partir da escrita de cada um.
E como a escrita "desaba por dentro", aguardo.....
bjos,
Lucia Cunha Frota

Gozar menos, saber mais





O primeiro encontro do Tear 4 chamou-me atenção no testemunho das participantes a relação de cada uma com o saber. Os entraves e as aberturas que vão em cada caso ora fechando, ora abrindo caminho para a trilha de um percurso, para a amarração de uma trança. O embalo da nossa conversa me levou ao Seminário 20 de Lacan para ali pescar algo que ele diz a respeito do gozo.

Neste seminário, Lacan vai iniciar a abordagem do gozo relacionando-o a noção do direito de usufruto. Termo este que, nessa ciência,quer dizer que se pode gozar de um bem, porém, não muito. O usufruto vem regular a tentação de se gozar demais, estabelecendo limites a isso. No direito está previsto também que o sujeito “pode gozar” e não um “tem que gozar”. Não se trata de algo da ordem do dever e sim do direito. Ao contrario, para a psicanálise,o gozo é aquilo que esta submetido a um imperativo superegóico: Goza! Escapando a regulagem utilitária que lhe pretende o direito, goza pra lá do que é útil! Goza em excesso! Mais, ainda! Comanda o superego!

Mas, não é o gozo que faz barreira ao saber? Como se assujeitar ao comando superegóico do gozo em demasia e ir adiante na construção de um saber? Impossível. E é isso que, me parece, vêm mostrar os participantes, no seu testemunho do desejo de saber. Deixar o desejo barrar o gozo, pra sair sabendo um pouquinho mais.


Germana Pimenta Bonfioli

domingo, 21 de março de 2010

Quando contar passa à arte de bem-tecer




“A trança está no princípio do nó borromeano. Com efeito, por pouco que vocês cruzem convenientemente esses três fios, os reencontram em ordem na sexta manobra, e é isto o que constitui o nó borromeano. Se assim procederem doze vezes, têm outro nó que, curiosamente, não é visualizado de imediato, mas tem o caracter borromeano.”[ J.Lacan, Sem.24 – 18/01/1977 ]

“A excomunhão” é a primeira lição do Seminário de Jacques Lacan, “Os 4 conceitos fundamentais da psicanálise”(1964), que acontece na Escola Normal Superior, de Paris. Este ensino é retomado após a suspensão pela IPA, em outubro de 1963, dos trabalhos de Lacan na Sociedade Francesa de Psicanálise.
O corte na nomeação de didata, da IPA, faz buraco ali onde estaria o próximo tema do ensino de Lacan, sobre “Os nomes do pai”. Desta fenda que se reabre, ele toma a palavra em outro endereço, endereçando-se a um outro público e singularmente fala do lugar de uma nova posição subjetiva. A partir disso, a exigência de trabalho que envolve a psicanálise e sua sustentação na cultura passa a ter um outro estilo.

A ‘Excomunhão’ naquele momento do sujeito, relança-o ao salto de uma rigorosa revisão da psicanálise e da formulação dos seus conceitos, numa quase extenuante implicação dos analistas pela transferência de trabalho ao texto de Freud. Ou seja, fica proposto que para se fazer a psicanálise enquanto práxis, é preciso que uma fatia do desejo de cada analista esteja contida na elaboração dos conceitos, com os quais circunscrevemos o real da experiência clínica.

Dando ênfase a uma das perguntas desta lição: Qual é o desejo do analista? Lacan a destaca como o melhor lugar de onde se questionar sobre o estatuto da psicanálise enquanto práxis, “em todos os sentidos que este termo deve implicar de ‘uma experiência’.”

“O que será do desejo do analista para que ele opere de maneira correta?”, na direção desta pergunta define-se outra leitura, a de que o problema da formação em psicanálise, em cada caso, é a razão principal de não se deixar esta questão fundamental fora da ordem do dia, ou da vida cotidiana da psicanálise.

Surpreendentemente, tal como entendo que somente a surpresa resplantece fulgores do discurso analítico, verifiquei que durante o tempo em que se realizavam as atuações burocráticas deste processo de reconhecimento e filiação por parte dos comitês organizados da IPA, o ensino de Lacan perfazia recortes na abordagem da Angústia(1962-63), ali onde se trançavam os fios de sua experiência, entre os espaços vazios do real da castração e a voz-letra, de um luto, em trabalho de vir a ser causa.
“...e assim como Freud, não posso dar conta “daquilo que ensino” a não ser acompanhando seus efeitos no discurso analítico: efeitos de sua matematização, que não vem de uma máquina, mas que revela algo de um ‘treco’, uma vez que ele a produziu.” [Lacan – “O aturdito”, Outros Escritos.]

O efeito de surpresa com a elaboração que Lacan trazia a luz naquele momento, com o Seminário da Angustia, deve-se à precisão com que se pontuava a teorização da clínica, vinda de sua experiência na aposta da lógica do inconsciente como pulsação temporal do trabalho de transferência, sustentando a diferença na duração das sessões de análise, e a articulação coerente dessa posição com a tão questionada abertura de seus seminários a seus analisandos, instituindo ali a transferência de trabalho na psicanálise.

É interessante pensar que o tratamento que Lacan dedicava ao luto perfazia uma trajetória que levava ao coração da relação entre Ideal e objeto a. E nesta perspectiva não há diferença de processo tanto no individual quanto no coletivo. Sua duração e suas dificuldades estão ligadas à função metafórica dos traços conferidos ao objeto do amor, na medida em que estes traços são privilégios narcísicos.

É de nossa responsabilidade não deixar esquecido que a problematização que se coloca em relação ao objeto a, é bem diferente daquela do acesso a algum Ideal, onde um objeto substituto pode vir preencher o campo do ser, circundado pelo amor.
Em relação ao objeto no campo do desejo, não há maior ou menor preço ou valor que um outro. Parece-me ser este um apontamento do luto, em torno do qual irá se ordenar o desejo do analista.

Aí está indicada uma trajetória para recomeçar estudos e conversas. Estamos questionados e somos levados a não mais recuar da questão que recai sobre o luto pelo objeto a, voltas processadas e em elaboração na análise daquele que se autorizará analista

“o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.”.... “Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo”....”Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.... E estou contando não é uma vida de sertanejo, mas a matéria vertente...”. [Guimarães Rosa – “Grande Sertão, veredas”]

Com esta provocação do ‘fazer com’, postada no Tear 4, relanço-me ao trabalho, por via desta volta ímpar dada pela experiência de que, com a psicanálise, não basta ter bom ouvido, é preciso ainda que se escreva a trajetória da causa do desejo.

Lúcia Montes.
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"A surpresa resplantece fulgores do discurso analítico”!

Lucia Montes nos refresca a memória do esquecimento, aquela que nos permite trabalhar, esquecidos de um saber advindo, e só dele, de um luto feito e ‘em sendo feito’ e, ainda a fazer, sempre, de uma constante ‘excomunhão’que caracteriza a atopia do lugar do analista. Por que nos surpreendemos tanto e sempre? O que há de ser do desejo do analista “para que ele opere corretamente”? (Lacan, sem 11) Por que é que “surpreendentemente”se é só da surpresa que o discurso analítico pode se instaurar, num fulgor???

Que Lucia nos transmita, por extenso, seu trabalho sobre o tema, do “Contar à arte de bem tecer”!

quarta-feira, 17 de março de 2010

Quando contar passa à arte de bem-tecer




“A trança está no princípio do nó borromeano. Com efeito, por pouco que vocês cruzem convenientemente esses três fios, os reencontram em ordem na sexta manobra, e é isto o que constitui o nó borromeano. Se assim procederem doze vezes, têm outro nó que, curiosamente, não é visualizado de imediato, mas tem o caracter borromeano.”
[ J.Lacan, Sem.24 – 18/01/1977 ]


Retomando seu ensino na Escola Normal Superior de Paris,após a suspensão, em outubro de 1963, feita pela IPA, dos seus trabalhos na Sociedade Francesa de Psicanálise, Lacan intitula de “A excomunhão” a primeira lição daquele que seria seu 11º Seminário, em janeiro de 1964.

Uma das perguntas desta lição: Qual é o desejo do analista? Lacan o propõe como o melhor lugar de onde se questionar sobre o estatuto da psicanálise enquanto práxis, “em todos os sentidos que este termo deve implicar de ‘uma experiência’.”
"O que será do desejo do analista para que ele opere de maneira correta?”

Na direção desta pergunta define-se outra leitura: a de que o problema da formação em psicanálise, em cada caso, é a razão principal de não se deixar esta questão fundamental fora da ordem do dia, ou da vida cotidiana da psicanálise.
A interdição da IPA ao nome de Lacan na lista de seus analistas didatas, faz buraco ali onde estaria o próximo tema de seu ensino, que seria sobre “Os nomes do pai”.

Desta fenda que se reabre, Lacan toma a palavra em outro endereço, endereçando-se a um outro público e, singularmente, fala do lugar de uma nova posição subjetiva. A partir disso, a exigência de trabalho que envolve a psicanálise e sua sustentação na cultura passa a ter um outro estilo.

“...e assim como Freud, não posso dar conta “daquilo que ensino” a não ser acompanhando seus efeitos no discurso analítico: efeitos de sua matematização, que não vem de uma máquina, mas que revela algo de um ‘treco’, uma vez que ele a produziu.” [Lacan – “O aturdito”, Escritos.]

A ‘Excomunhão’ naquele momento do sujeito, relança-o ao salto de uma rigorosa revisão da psicanálise e da formulação dos seus conceitos, numa quase extenuante implicação dos analistas, pela transferência de trabalho ao texto de Freud. Ou seja, fica proposto que para se fazer a psicanálise enquanto práxis, é preciso que uma fatia do desejo de cada analista esteja contida na elaboração dos conceitos, com os quais circunscrevemos o real da experiência clínica.

Surpreendentemente, tal como entendo que somente a surpresa 'resplantece' fulgores do discurso analítico, verifiquei que durante o tempo em que se realizavam as atuações burocráticas deste processo de reconhecimento e filiação por parte dos comitês organizados da IPA, o ensino de Lacan perfazia recortes na abordagem da Angústia(1962-63), ali onde se trançavam os fios de sua experiência, entre os espaços ainda vazios do real da castração e a letra-voz de um luto em trabalho de vir a ser causa.
“o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra.”.... “Ações? O que eu vi, sempre, é que toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo”....”Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.... E estou contando não é uma vida de sertanejo, mas a matéria vertente...”. [Guimarães Rosa – “Grande Sertão, veredas”]


Com esta provocação do ‘fazer com’, postada no Tear 4, relanço-me ao trabalho, por via desta volta ímpar dada pela experiência de que, com a psicanálise, não basta ter bom ouvido, é preciso ainda que se escreva a trajetória da causa do desejo.

Lúcia Montes _________________________________



segunda-feira, 15 de março de 2010

De novo, momento de ver...


“O inconsciente se manifesta sempre como o que vacila num corte do sujeito – donde ressurge um achado que Freud assimila ao desejo”
Lacan,Sem 11,pag 32




A palavra “excomunhão” me tirou num contra-pé, de um dado lugar. Lugar dado, dado lugar. Dado...disse a vcs. “Os dados estão lançados”ao me referir aos dados do grupo que se formou para o trabalho do Tear 4, feitas as apostas de cada um.
No que diz respeito ao inconsciente, Freud reduz tudo o que chega ao alcance de sua escuta à funçao de puros significantes. É em função desta redução que pode aparecer, um momento de julgar e de concluir. Isso é o que se poderia chamar um testemunho ético.
“Ex/comunhão”.
Recém saída de um dado lugar, lugar dado de trabalho e dado lugar de trabalho me disponho a trabalhar de novo e repetidamente. E aqui é preciso me situar. Da rememoração à repetiçao, não há mais orientação temporal, nem reversibilidade. Não são comutativas, Lacan lembra, não é a mesma coisa começar pela rememoração para lidar com as resistências da repetição, ou começar pela repetição para ter um começo de rememoração. A função tempo é aqui de ordem lógica.

Um recorte feito no texto de Lacan, após ter ouvido e me dado conta da excomunhão me recoloca na experiência.

..."é pela repetição, como repetição da decepção, que Freud coordena a experiência, enquanto que decepcionante, com um real que será daí por diante, no campo da ciência, situado como aquilo que o sujeito está condenado a ter em falta, mas que essa falta mesmo revela.” Sem 11, pag 42

Para mim a experiência pontual e lógica do trabalho em psicanálise, teoria, clínica e vida, campo a que estou condenada a ter “em falta”, sempre “em falta”, me move, neste momento,Tear 4 afora, em diante.
Angela Porto

Repetir...repetir...até fazer diferente!


No capítulo X, do seminário XI-Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, intitulado Presença do analista ,Lacan diz sobre a transferência:"Que maneira melhor de se garantir,do que persuadir o outro da verdade do que lhe adiantamos...Ao persuadir o outro de que tem o que nos pode completar, nós nos garantimos de poder continuar a desconhecer precisamente aquilo que nos falta."
Diz assim da relação entre tapeação e amor.
Fico me perguntando se a 'transferência ao texto', este amor ao 'saber não sabido', não pode funcionar como garantia do desconhecimento do que nos falta, como algo que serve para tamponar mais do que desvelar. Ou melhor dizendo, como fazer desta trança algo que seja um mais além de um gozo..!? Sim, é claro que o texto não responde! E é aí que ele nos lança na busca, nos põe a trabalho.
Quando não se pode fugir deste saber sobre o inconsciente ( ah! se pudesse não hesitaria ...e não teria êxito!) na sua dimensão subjetiva e teórica ,só resta nos colocar a trabalho, tecer, fiar, tramar, contornar buracos com fios de palavras, com fios de aranha. Na teia, ora se é mosca ora aranha...alienação e separação.
Também no samba há um passo chamado trança - gesto de pernas e quadril riscando o chão e o espaço....ritmo, repetição, criação. Como diz o poeta Manoel de Barros, "repetir...repetir... até fazer diferente."
Marcia Sartorelo Carneiro

A função causa: hiância



“A causa não é racionalizada.”
“Só existe causa para o que manca.”
“O ics se mostra pelas mancadas.”


A função causa é esburacar a rede de significantes, ou a rede de significantes é esburacada pela função causa?

Quando o sujeito informulado chega ao mundo, se sobrepõe a ele a rede de significantes pré-existente. O lançamento sonoro do sujeito é capturado pela rede e pelo o afeto de quem é o porta voz da cultura, e o significa.
Então o ponto inaugural provém do campo do outro e se faz no ato desse encontro.
A possibilidade do sujeito fica então aprisionada na rede de significantes (alienação), que só se mostra verdadeiramente nas mancadas do ics.

É esse sujeito do ics que deve advir trazendo uma tentativa de significação de sua particularidade. E a aposta é de que se faça trabalho para se criar sentido para o sujeito ali (separação).

Então o que causa é algo que ainda não entrou na rede de significantes...
O que causa tem uma estruturação própria como uma linguagem com conexões cifradas, absolutamente particulares, e que devem ser decodificadas pelo sujeito na rede.

Acho que esta é a proposta do Tear 4: texto, experiência, interjeição, ócio.
A psicanálise me causa, quero mais. O que? Significações, sentido.
Pode estar no prazer do estudo, na convivência, nas trocas da experiência, e mesmo no ócio do cafezinho...

Simone Caporali