Projeto inaugural do Tear 4

Projeto inaugural do Tear 4

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"Há palavras na fala que vêm como cabelos na sopa"...


Para esquentar a conversa sobre o filme "Les mots pour le dire" e o livro "Palavras para dizer" de Marie Cardinal, no TEAR 4, dia 3/05/2010,às 13,30h, à Rua Fernandes Tourinho, 470, salão do 3o andar, publicamos algumas palavras para dizê-lo,da própria autora, quando comentava outro de seus muitos livros: "Autrement dit"

« Nos meus livros, penso que os leitores encontram uma mulher que vive na França hoje e que se parece no fundo com todas as mulheres. É o que eu sou. Conheço a magia do hermetismo.Eu o encontrei durante minha psicanálise e compreendo que se escolha esta via,a do hermetismo, mas eu não a escolhi, eu escolhi outra, a via da massa, aquela das pessoas. Posso lhe dizer porque fiz esta escolha, mas quero primeiro falar de um discurso secreto, talvez muito poético, totalmente satisfatório, que se pode estabelecer entre um analista e seu analisante. Há, frequentemente, pessoas que me dizem : « Mas, já que se trata de falar totalmente sozinho, não compreendo porque é preciso um médico, deve-se poder sair-se disso sem ele ».Era o que eu mesma pensava antes.Achava que sabia tudo de introspecção.A princípio, as palavras saiam como de costume. Foram precisos alguns meses de sessões para dar-me conta que eu falava como um papagaio, que eu era mais vivida que vivente, que as palavras que eu pronunciava não me pertenciam, que elas pertenciam a minha família, ao meu meio, à minha educação. A presença muda e invisível do doutor é que me fez tomar consciência disso. Porque ele estava lá, e só se manifestava por raspadas de garganta ou mudanças de posição em sua poltrona : isso bastava. Ele nunca me julgava, nunca fazia comentários, não procurava dirigir, mas sentia-o muito atento. De repente presta-se atenção àquilo que se diz e descobre-se que há palavras na fala que vêm como cabelos na sopa e outras que não passam. Dito de outra forma, a fala se torna viva, é o começo. Depois a gente ‘pega’o costume de associar, de estabelecer relaçoes entre os momentos, as lembranças, os pensamentos, que jamais se teria antes relacionado.São as palavras que servem de veículo, que conduzem até palavras-irmãs, palavras-idênticas, palavras-sinônimas, palavras-espelho, palavras-inimigas. Estas palavras se tornam palavras chave e à medida que a análise se desenvolve, permitem uma comunicação rápida e profunda entre analista e analisado.........Pois as palavras chave são de sínteses de longas e importantes passagens da análise que englobam, elas mesmas, pedaços capitais da propria vida daquele que fala... »(Marie Cardinal,comentário em Littérature, site da internet, tradução de Angela Porto)

sábado, 24 de abril de 2010

L'insu qui sait????




“ Acontece frequentemente que depois de havermos laboriosamente forçado algum conhecimento no paciente, ele declarará: ‘Sempre soube disso, poderia ter-lhe dito antes’.” Freud, pág 357, Estudos sobre a Histeria

“ Jamais me cansarei de repetir que estamos destinados a aceitar tudo que o nosso processo traz à luz. Se houver algo nele que não seja autêntico nem correto, o contexto posteriormente nos dirá que o rejeitamos. Mas posso dizer de passagem que quase não tive a ocasião de repudiar mais tarde uma reminiscência que fora provisoriamente aceita. Tudo o que surgiu mostrou ser correto – apesar da aparência muito ilusória de uma contradição gritante.” Freud, idem.


Qui sait quelque chose a nous dire sur tel sujet???

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Buemba!!! Um link interessante!!!


http://www.psikeba.com.ar/recursos/entrevistas/JacquesLacan.htm


Façam a experiência de entrar no link acima e leiam uma entrevista de Lacan, feita por Paolo Caruso em espanhol, que apareceu com o título de "Conversações com Lévi Strauss, Foucault e Lacan, em Milão,U Murcia & C, 1969, Ed Anagrana,1969, pags 95-124 É possível salvá-la e imprimí-la, caso queiram!

domingo, 18 de abril de 2010

Para que serve a escrita????


Um blogger é um mediador. Através dele, pretende-se que um vazio, este sim, mediador verdadeiro, possa permitir trançar e escrever, daquilo que nos trabalha, desde uma palavra, até uma interjeição, desde um desenho, até um rabisco, vindo de onde vier, chegue até onde chegar... nossa experiência. Lembrando a proposta inicial e vigente do Tear 4:

Que neste 'em sendo' lógico do tempo de 'fazer com',possamos entrever a escrita de tranças singulares através do trabalho com outros.A proposta/aposta de trançar as experiências do ofício inaugura para nós um outro modo de forjar o passo a passo de um processo em que cada um siga reconhecendo as razões de seu percurso com a psicanálise, e, mais ainda, a posta em causa de sua escolha.

E então, isso dito, para que serve a escrita? Ora, ela não serve! Ela faz borda, no máximo ela serviria, em psicanálise para escrever o que não pode ser escrito. O que não se escreve não "cessa de não se escrever”. E ela não serve, porque o seu exercício exige daquele que escreve este deslizamento da letra ao lixo. Que os participantes do Tear 4 e outros que dele queiram se servir façam uso do blog. Apostem e lancem os dados, trancem e escrevam!!!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

"Às voltas com linhas,fios e nós...a flor do meu segredo"


Às voltas com linhas, fios e nós, lembrei-me de um filme de Almodóvar, A Flor do meu segredo (1995), em que uma escritora de romances açucarados de sucesso, assina com um pseudônimo e esconde ser a autora. Seu casamento está em crise e, em conseqüência, ela não consegue escrever no velho estilo e cria um livro depressivo que foi recusado pela editora. Tomada pela depressão e pela bebida, a escritora vai ao fundo do poço, como se diz. Há um momento que numa tentativa desesperada de sair desse estado, faz uma viagem para sua cidade natal e reencontra as velhas tias e vizinhas, mulheres com as quais se reúne todas as tardes e, sentadas nas cadeiras nas calçadas conversam e tecem. Assim, passam os dias falando e tecendo, até que numa manhã ela acorda, pega suas coisas e retorna, retomando o “fio de sua vida”.

Parece que estamos falando da própria experiência analítica, desse espaço-tempo-fora, que Lacan chamou de ex-sistência, em que só nos resta falar e tecer cercando o buraco que se abre em momentos privilegiados de uma análise, em que nos deparamos com o vazio de nossa própria estrutura. E o que fazer, quando nenhuma palavra serve, quando nenhuma interpretação tem efeitos, quando a cadeia em que nos sustentamos vacila e já não sustenta mais como antes? Resta-nos, quem sabe, fazer como a personagem do filme – habitar por um tempo lógico, esse campo vazio do feminino onde só se pode falar e tecer, uma fala em que a linguagem não tampona e, sim, promove efeitos, como se acompanhasse as mãos, tecendo a rede que pode conter nosso ser de falta.
Gilda Vaz Rodrigues.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sobre o Blog do Tear 4, disse Thereza Christina Bruzzi


Olá Angela,

li o Blog e só hoje pude te responder, pois queria escrever e estive sem tempo.

Fiquei tocada pelo movimento de fazer passar a psicanálise, lembrei –me de um texto sobre a Transmissão, que escrevi há um longo tempo e do qual recorto algumas passagens, que traduzem o que me ocorreu quando li o Blog:

“Contraímos uma dívida com a psicanálise que nos impulsiona a passá-la adiante, transferir movimento.

È como um chiste bem-sucedido, é preciso passá-lo adiante: “Deve contá-lo” nos diz Freud.(...) A vinculação do chiste com a psicanálise está na radicalidade de que o chiste não se faz sem a terceira pessoa.(...)

Transmissão na psicanálise: o movimento do desejo é retomado, o campo do Outro foi levado em conta e no que se passa, o não-saber tem lugar central, porque saído da incompletude do saber do Outro, da inadequação radical do sujeito para o saber. Transmissão que é , portanto, movimento da psicanálise.”

Faço votos de que prossiga o movimento.

Abraços, Thereza Christina Bruzzi.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A palavra na literatura é morte e resgate





Do Tear 4 surgiu uma proposta de ler o livro de Marie Cardinal “ Palavras para dizer “ 1975, catalogado como: Escritores argelinos em francês: Autobiografia romanceada.
Tal livro serviu de inspiração ao Filme "Les mots pour le dire", traduzido para o português como "Voltar a viver".
E a autora dedica o seu livro “ao doutor que me ajudou a nascer".

De qual nascimento ela fala ?

Se vida e a morte é o verso e reverso de uma mesma moeda e se o real é vida e o gozo, a morte?.... Que caminhos são oferecidos aos viventes para aceitar o desafio ?

As religiões, para os que crêem , oferecem recompensas, bônus para serem resgatados depois da morte . Mas até lá o que fazer ?

“Durante sete anos ,três vezes por semana ,caminhei por aquela ruazinha ....”
“Vi o homenzinho moreno que me estendia mão ...vi seus olhos pretos ,lisos como cabeça de prego ...”vi que ele era muito miúdo...”
“ Eu lhe obedeci quando ele me pediu para esperar ....”
“..e o homenzinho me mandou entrar para o seu consultório”...


Assim Marie Cardinal inicia suas memórias, retornando às imagens de sua infância e adolescência na Argélia através de uma escrita possível pelos recursos da psicanálise, pois, para” nascer de novo “ é preciso “fazer laços através dos buracos cavados pelas perdas ,decepções , que nos levam a mudar o rumo e o sentido das coisas .Não há enlace sem desenlace. Assim vamos tecendo o fio de nossas vidas" Gilda Vaz (blog)
Lucia Frota